Ministro do petróleo venezuelano assume o "Pico do Petróleo"
por Últimas Noticias (05/11/06)

Últimas Noticias (UN)
Rafael Ramírez (RR)
Uma das coisas que afirmou o ministro de Energia e
Petróleo e presidente da PDVSA (Petróleos de Venezuela
S.A), Rafael Ramírez , ao comentar o vídeo que o
dirigente da oposição, Gerardo Blyde, lançou a
público, em que o próprio Ramírez faz declarações a
favor do presidente Chávez, é que o processo eleitoral
do próximo 3 de Dezembro não é "mais uma contenda
eleitoral". Nas urnas vai estar muita coisa em jogo,
"tentar regredir o país ao que era antes de todos
estes acontecimentos é uma ilusão que podia
concretizar-se dando um banho de sangue ao nosso
povo". A coisa é de vida ou de morte.
A resposta política que deu o governo depois da
derrota da greve petrolífera, que deixou como sequela
mais de 20 000 empregados petrolíferos fora da
indústria e fortaleceu o estado como principal agente
económico da Venezuela, tem agora continuidade, 3 anos
depois em plena campanha eleitoral.
Porque razão? "Porque isso não está resolvido. Em
primeira instância há uma quantidade de juízos penais
pendentes por 14 700 milhões de dólares que esta
empresa perdeu; há uma quantidade de juízos em curso e
há uma situação que ainda está muito fresca. E o facto
é que a partir do momento em que tomamos o controlo da
PDVSA temos conseguido executar uma política soberana
que está em desenvolvimento: a única razão pela qual
pudemos resolver os convénios operativos, os ajustes
das regalias e o facto de que possamos finalizar o
tema da Faixa (de Orinoco), é porque temos uma empresa
estatal que trabalha ao lado do estado."
A polarização política estalou como uma reacção em
cadeia, mas mais além do que se passe em 3 de
Dezembro, a sorte que venha das urnas, a Venezuela tem
desafios e dilemas que enfrentar como um dos
principais países exportadores de petróleo. O fim da
energia fóssil como combustível da economia mundial
está ao virar da esquina e o enigma que temos nas mãos
podia resumir-se à abordagem que fez o economista
Asdrúbal Baptista:
"O petróleo não nos vai desenvolver, mas sem o
petróleo não vamos alcançar o desenvolvimento."
UN - Um impulso não chega, propiciaremos novos e
diferentes impulsos?
RR - Em 2012 não haverá maneira do mundo repor as
reservas [NT: o ministro refere-se à produção] a uma
taxa superior à que exibe o consumo. Haverá petróleo,
sem dúvida, mas a partir desse ano começará o declive
de um recurso não-renovável.
UN - A PDVSA avaliou esse cenário?
RR - Nós temos um plano de negócios ("Siembra
Petrolera", Sementeira do Petróleo) que vai de 2006 a
2012, que tem como objectivo garantir que damos uma
resposta ao alcance das nossas possibilidades e
participação no âmbito da Organização dos Países
Exportadores de Petróleo (OPEP) a essa conjuntura.
Estima-se que nesse momento haverá uma procura de mais
de 100 milhões de barris de petróleo por dia. Não
acreditamos que venham a surgir tecnologias
substitutas do petróleo no curto-prazo, porém haverá
um mercado mais assimétrico, no sentido em que as grandes
economias vão consumir mais e capturar todo o petróleo
que haja no mercado, abrindo um abismo cada vez mais
importante entre os países pobres do planeta e o
chamado primeiro mundo. Não há maneira, por exemplo,
de que um navio se desvie da sua rota para os Estados
Unidos, cuja economia consome 20 milhões de barris por
dia para colocar 500 barris num país do Caribe. Nós
acreditamos que as grandes economias dos países
industrializados têm um modelo de consumo que é
suicida.
É o caso dos Estados Unidos, que está actuando
militarmente para fazer-se dono de um recurso que já
se sabe que vai escassear. A guerra do Iraque não é
mais do que uma guerra de conquista pelo petróleo e a
agressão contra a Venezuela tem a ver com essa
estratégia. Nós temos um plano de investimentos de 60
mil milhões de dólares; que além do mais envolve, em
custos e gastos, 70 mil milhões de dólares. Vamos elevar a
produção até 5,8 milhões de barris (por dia) de
petróleo e a nossa capacidade de refinação de 3,3 milhões
para 4 milhões de barris (diários).
UN - Esse investimento far-se-á exclusivamente nos
campos da PDVSA ou inclui as empresas mistas?
RR - É um plano para a produção do país, que contempla
que pelo menos 70% se faça com recursos próprios e o
resto com recursos financiados. Temos dois tipos de
áreas de crescimento: as nossas áreas tradicionais
(Zulia, Barinas e o Oriente do país), onde estamos
num esquema de esforço próprio e empresas mistas,
depois das migrações (sic) dos convénios operativos.
Isto tem as suas próprias características; em Zulia,
por exemplo, há que repensar tudo. A sua estrutura de
produção data dos anos 60. Actualmente estamos a mudar
até a maneira de extrair o petróleo. Mas a nossa
principal área de crescimento vai ser a Faixa de
Orinoco e de aí a importância do projecto "Magna
Reserva", para quantificar os 313 mil milhões de
barris que há ali. Tal fá-lo-emos para gerar uma resposta com
empresas privadas. Na Faixa (de Orinoco) faremos um
investimento de 15 biliões de dólares, dos quais PDVSA
poderá contribuir com pelo menos 51%.
UN - Se o mecanismo que se vai implementar para
extrair o petróleo e levá-lo ao consumidor é o
investimento, os sócios que venham à Venezuela
quererão a sua taxa de retorno. O Estado propiciará o
marco legal para que esse lucro ocorra?
RR - Creio que sim. No negócio do petróleo se não há
um patamar de 30%, o retorno não surge; não se passa o
mesmo com os projectos de gás ou de indústria. Este
negócio é de grandes ligas, digamos. Aqui temos uma
grande vantagem na Faixa de Orinoco, onde se localizam
as reservas mais importantes do planeta e na qual foi
demonstrado que se pode extrair petróleo a um custo de
produção que não ultrapassa dois dólares por barril.
Do ponto de vista tecnológico, o que temos ali é
extremamente exitoso: passar um crude de 9 graus AP
(petróleo extra pesado) para um de 34 graus AP
(petróleo leve). Aí temos uma certeza exploratória.
Não se trata de que as empresas se vão meter em mares
profundos a ver o que conseguem.
UN - Será um negócio dentro do marco do capitalismo...
RR - Dentro do marco da legislação venezuelana, que é
muito clara e estabelece empresas mistas com maioria
accionária da PDVSA; estabelece a regalia de 30%, o
imposto de extracção de 33,33% e o imposto sobre o
rendimento (semelhante ao IRC). Se aos privados
convier fazer negócios baixo esse regime...
bem-vindos; se considerarem que é muito complicado,
que vão para outro sítio. Estamos à procura de sócios
que queiram manter-se no país respeitando as nossas
regras. Assim o digo porque baixo a justificação de
que explorar a Faixa (de Orinoco) era muito difícil,
aqui se fizeram coisas terríveis. Outorgaram-se
concessões onde o Estado perdeu a maioria e o antigo
Congresso proibiu que a PDVSA tivesse maioria. Coisas
sem sentido.
UN - O que se vai fazer com o sector empresarial
venezuelano? Com o capital nacional?
RR - Temos dito que não queremos ser apenas uma
empresa extractiva e minera. Queremos dar um salto
qualitativo. Vamos alavancar a PDVSA directamente com
as empresas que têm tecido industrial. Disso sempre se
falou. Mas aqui vamos fazê-lo com a nossa
participação. Porque temos de continuar a alugar as
máquinas perfuradoras às empresas de sempre? Cerca de
80% do nosso rendimento gasta-se nessa actividade.
Assinamos um acordo com os chineses para fabricar
máquinas perfuradoras dentro do país e estamos a
reservar uma percentagem para o sector privado
nacional.
UN - Quantos privados na verdade?
RR - Nós queremos que eles deixem de ser o franchising
de uma empresa e se ponham a produzir no país. A PDVSA
vai comprar 50 navios para garantir o transporte de
50% da produção em 2012 e criamos um consórcio com
empresas brasileiras; temos reservado uma percentagem
para os privados nacionais. Já lhes dissemos que
nos queremos associar (a eles) para satisfazer a
procura de tubos (750 mil toneladas no pico máximo do
plano); com um investimento de 30 ou 40 milhões de
dólares podem duplicar a sua capacidade actual. Vamos
trabalhar com eles se quiserem integrar-se ao esquema
nacional.
Se algo ficou claro na greve petrolífera é que o
agente económico mais rico da Venezuela é o Estado.
UN - Não há um grande desequilíbrio entre o poder do
Estado e a sociedade civil? O Governo tem um plano
para resolver este desequilíbrio?
RR - O Estado venezuelano não deve renunciar ao
controlo da actividade económica. Nós estamos na linha
de construir o socialismo. Temos que ser capazes de
planificar a nossa economia e ter os instrumentos para
isso. O rendimento do petróleo permite-nos fazer isso.
Aquilo de que se trata, no final de contas, é de como
se distribui o rendimento do petróleo. Não de
desequilíbrio. Creio que no fundamental nos últimos 60
ou 70 anos de exploração (económica) petrolífera, o
tema tem sido, precisamente, como se distribui o
rendimento do petróleo.
UN - Você diria que o Estado é uma ponte entre o
petróleo e os venezuelanos?
RR - É a única ponte possível, porque o Estado
representa um interesse colectivo e não particular.
Se entregas o sector petrolífero aos privados não há
maneira de fazer escolas bolivarianas, eles farão os
seus colégios privados; ou que faças a missão "Bairro
Adentro", eles farão as suas clínicas privadas. Não há
maneira de um privado construir um país
equilibrado, porque há coisas que não são rentáveis
do ponto de vista económico. O Estado venezuelano
é o único agente que não tem esses critérios
mercantis.
UN - A PDVSA não acertou no alvo para dizer aos
venezuelanos, às diferentes audiências que conformam o
país, que a riqueza do petróleo têm um uso distinto,
que tem outra direcção e outro impulso. Isso é difícil
de quantificar.
RR - Não. Eu o quantifico. A partir de 2002, a nova
Lei de Hidrocarbonetos incrementou a regalia que
recebíamos; em 2004 elevou-se a regalia de 1% a 16% e
2/3 nos projectos da Faixa (de Orinoco); nesse ano
acabaram-se os convénios operativos que não pagavam
impostos nem regalias. Este ano modificou-se a Lei de
Hidrocarbonetos e criou-se o imposto de extracção e
elevamos os ganhos em 33,3% para a PDVSA.
Restabelecemos a arrecadação fiscal do petróleo.
Isto significou em 2002 receber 26 mil milhões de
dólares adicionais para o Estado.
Se o presidente Chávez não tivesse feito isso, esses
recursos tinham fluído para o exterior como ocorria no
passado. Não se tratava somente de piorar o preço do
petróleo, que era muito importante, mas também de
captar o lucro máximo. Queremos elevar a participação
do Estado por cada barril de petróleo até 66%
(actualmente é de 60%). Esse dinheiro manteve-se no
Estado e tem sido a única maneira pela qual temos
podido re-capitalizar o país.
Registo Verbal

A PDVSA destinou, entre 2004 e 2005, 10 mil milhões de
dólares para alavancar o sector produtivo nacional
não-petrolífero.
Criaram-se mecanismos de financiamento – o FONDEN,
entre outros – onde se investiram 4 mil milhões de
dólares.
"O Metro até Los Teques, a linha de comboio até los
Valles del Tuy, a auto-pista, tudo isso saiu dali",
sustém Rafael Ramírez. Se tivessem feito ao contrário,
"teríamos tido que chegar a um acordo com o FMI, mas
já o advertimos que não aceitamos as suas condições".
Que a gente já percebeu que a riqueza petrolífera tem
outro destino?
"Eu posso falar", afirma Ramírez, "por 700 mil
estudantes da Missão Ribas, pelos 400 estudantes
graduados; por um país que está mobilizado e recuperou
a sua auto estima".
Felipe González, o ex-presidente do governo espanhol,
declarou que o gasoduto entre a Venezuela e a
Argentina não tinha viabilidade económica e portanto
era um projecto irrealizável. "A Felipe eu o respeito
muito, mas não sabia que ele conhecia estes temas
técnicos.
Nós temos o acompanhamento técnico da empresa de gás
russa Gazprom, a maior do mundo e que fez todos os
gasodutos desde a Sibéria até à Itália.
Se olhares para o mapa da América do Norte vês
gasodutos que vão desde o Canadá ao Golfo do México.
Agora, quem disse que íamos construir um tubo
gigantesco fabricando tubos aqui?
Isso tem as suas etapas. Pensamos chegar primeiro a
Fortaleza, ali começas a gerar um rendimento, uma
actividade; depois vamos para Pernambuco e avançamos
progressivamente.
O mais importante para estes projectos, mais que as
dificuldades técnicas ou económicas, que não as vejo,
é o acordo político que se conseguiu". Trata-se da
irrigação energética do Mercosul.
O seu Perfil

Rafael Ramírez é engenheiro mecânico graduado na
Universidade Dos Andes. Realizou um mestrado em
Energia pela Universidade Central da Venezuela.
Iniciou a sua actividade profissional na Intevep,
onde se especializou em crudes pesados.
Foi presidente fundador da Entidade Nacional do Gás
(Enagas) e é desde 2004 ministro da Energia e
Petróleo e presidente da Petróleos de Venezuela SA
(PDVSA).
Tradução: Luís Rocha
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