O Pico de Hubbert
Introdução

O Pico de Hubbert, também conhecido como Pico do Petróleo, é um modelo matemático que
trata e explica a taxa de extracção e esgotamento a longo prazo de petróleo
convencional e de outros combustíveis fósseis. Este modelo mostra que a produção
petrolífera mundial alcançará no futuro um pico e depois declinará ao longo de poucas
dezenas de anos. O ano preciso será conhecido somente depois de passado o pico.
Baseando-se nos dados disponíveis sobre a produção a Associação para o Estudo
do Pico do Petróleo e do Gás (ASPO), projecta para 2010 o pico para o petróleo
e algumas dezenas de anos mais tarde para o gás natural. Isto conduzirá
inevitavelmente a gigantescas consequências económicas para o mundo já que a
civilização moderna depende de combustíveis fósseis baratos e abundantes,
especialmente para os transportes, produção de alimentos, processos químicos
industriais, tratamento de água, aquecimento doméstico e geração de
electricidade. O Pico de Hubbert deve o seu nome ao geofísico M. King
Hubbert, que lançou os seus fundamentos teóricos. Em 1956 Hubbert previu correctamente o pico
da produção de petróleo nos EUA com 15 anos de antecedência. Embora controverso, este modelo tem-se
mostrado a cada ano que passa mais eficaz em modelar correctamente a exploração de petróleo.
Ultimamente tem vindo a ganhar influência junto dos
decisores políticos dos governos e da indústria do petróleo. Actualmente,
raramente se debate se haverá ou não um pico, mas quando ocorrerá e qual a
severidade dos efeitos posteriores. Mesmo os mais generosos relatórios
corporativos estimam que as reservas de petróleo não durem mais que 100 anos.

A ASPO projecta neste momento o Pico do Petróleo e do Gás
para 2010
O modelo de Hubbert

O petróleo e outros combustíveis fósseis são o resultado de processos
geológicos no interior da terra. Os combustíveis fósseis foram criados quando
matéria orgânica deteriorada foi comprimida no subsolo há milhões de anos atrás
e atravessou determinadas alterações físico-químicas. O petróleo, tal como a
generalidade das outras fontes e reservas de energia na terra é em última
análise derivado do sol (sendo a energia geotérmica, a energia das marés, e a
energia nuclear notáveis excepções). Os combustíveis fósseis são energia solar
armazenada e são recursos não renováveis - ou seja, existem em quantidade
finita e as suas reservas não estão a ser repostas (pelo menos não a uma
velocidade comparável àquela da sua extracção). Isto é verdade apesar da sua
aparente abundância e da descoberta de reservas anteriormente desconhecidas.
Hubbert, um geofísico, criou um modelo matemático da extracção do petróleo que
previu que a quantidade total de petróleo extraída ao longo do tempo seguiria
uma curva logística (inicialmente a função logística tem um rápido crescimento,
depois abranda até que acaba por parar). Isto implica que, a determinada
altura, a taxa prevista de extracção do petróleo seria dada pela taxa de
mudança da curva logística, que segue uma curva com a forma de um sino
conhecida agora como a curva de Hubbert (ver a figura).

A curva de Hubbert é um modelo matemático da produção
futura de petróleo.
Em 1956, Hubbert previu que a produção de petróleo nos estados continentais dos
Estados Unidos teria o seu pico no início dos anos 70. A produção de petróleo
nos Estados Unidos realmente teve o seu pico em 1970 e tem diminuído desde
então. De acordo com o modelo de Hubbert, as reservas de petróleo dos Estados
Unidos estarão esgotadas antes do fim do século XXI. A modelo do pico de
Hubbert é mais frequentemente aplicada ao petróleo mas é aplicável a outros
combustíveis fósseis tais como o gás natural, o carvão e os petróleos não
convencionais.
Dadas as informações sobre a produção de petróleo no passado, e exceptuando
factores estranhos tais como a falta de procura, o modelo prevê a data da
produção máxima para um campo de extracção de petróleo, múltiplos campos, ou
para toda uma região. Este ponto máximo de extracção é referido como o pico. O
período após o pico é referido como o esgotamento. O gráfico da taxa de produção
de petróleo através do tempo para um único campo de petróleo segue uma curva em
forma de sino: primeiro, um aumento lento e constante de produção; depois, um
aumento acentuado; de seguida mantém-se algum tempo no topo (o "pico"); depois,
um declínio lento; finalmente, um declínio íngreme.
Quando uma reserva de petróleo é descoberta a produção inicialmente é pequena
porque a infra-estrutura necessária não foi ainda completamente instalada.
Assim que os poços são perfurados e as estruturas mais eficientes são
instaladas a produção de petróleo aumenta. A determinada altura, um pico de
extracção que não pode ser excedido é atingido, mesmo com melhor tecnologia ou
perfuração adicional. Após o pico, a produção de petróleo lenta mas
progressivamente vai declinando. Ainda antes que um campo de petróleo esvazie,
um outro ponto significativo é alcançado, quando é preciso mais energia para
extrair, transportar e processar um barril de petróleo do que a quantidade de
energia contida nesse barril. Nessa altura, não vale a pena extrair petróleo
para produzir energia, e o campo deve ser abandonado. A modelo do pico de
Hubbert implica que isto é verdade independentemente do preço do petróleo. Este
conceito é referido como a relação entre a energia extraída com a energia
investida.
Consequências do pico de Hubbert

É hoje bastante claro que qualquer declínio na produção mundial de petróleo irá
ter sérias consequências económicas e sociais. O crescimento económico global
está baseado em energia barata e o petróleo contribui significativamente para o
total do bolo energético global. À medida que o aprovisionamento energético
declina, o mesmo também acontecerá com o crescimento. Considerando que a maior
parte dos peritos já admitiu que o pico de petróleo convencional já está
ultrapassado, e que só falta o petróleo mais caro e mais difícil de produzir
(de águas profundas, polar, pesado ou sulfuroso, areias betuminosas),
ultrapassar o pico para toda a produção de petróleo total mundial (convencional
e não convencional) declinar. Há que ter em conta duas coisas: a data do pico
do petróleo e a consequente taxa de declínio.

Consumo mundial de Energia. Fonte: BP Statistical Review.
Inicialmente um pico na produção petrolífera manifestar-se-á através de uma
escassez estrutural de petróleo por todo o mundo. Esta escassez
diferenciar-se-á de outros períodos de escassez do passado devido à sua origem
fundamentalmente geológica e não política. Enquanto as anteriores se
materializaram numa insuficiência temporária do aprovisionamento, ao cruzar o
pico de Hubbert isso significa que a produção de petróleo continua em declínio
e que a procura deve ser reduzida para equilibrar o mercado. Os efeitos de tal
escassez dependem da taxa de declínio e do desenvolvimento e adopção de
alternativas. Se as alternativas não forem impulsionadas, então muitos produtos
e serviços, produzidos com petróleo, tornar-se-ão igualmente escassos, levando
a um declínio do nível de vida em todos os países importadores. Os cenários
previstos vão desde os "apocalípticos" até à "crença que a economia de mercado
e novas tecnologias vão resolver o problema". Com o propósito de resolver esses
problemas do pico do petróleo, Colin Campbell propôs o protocolo de Rimini. Um
protocolo que basicamente propõe uma concertação entre países produtores e
consumidores para diminuirem em conjunto o consumo e produção de petróleo à
taxa de declínio prevista pela curva de Hubbert.
É improvável que o próprio pico do petróleo seja o catalisador directo do
declínio económico global. Em vez disso é provável que a grande turbulência
económica comece com a percepção de que o pico do petróleo (e de gás natural) é
iminente ou já ocorreu por parte da comunidade financeira. As indicações de
volatilidade económica já se manifestaram na mais alta subida na taxa de
inflação em 15 anos (Setembro de 2005), que se deveu sobretudo a altos preços
de energia. Já que o gás natural é o maior e mais importante material na
produção de fertilizantes, uma escalada nos preços de gás natural pode trazer
uma grande pressão inflacionista nos preços dos alimentos, para além do aumento
nos custos de transporte.
Existem também implicações políticas do "pico do petróleo". Em 1976 William
Ophuls publicou o livro "Ecologia e a Política da Escassez". Neste livro, ele
argumenta que o sistema de governo básico dos países ocidentais formou-se no
período entre o final do século XVIII e o início do século XX, este sistema
experimentou (e acabou por dar como garantido) uma grande abundância de
recursos naturais. Os nossos sistemas de governo continuam a assumir (e a
depender de) crescimento económico ilimitado e recursos naturais virtualmente
ilimitados, incluindo o petróleo e o gás natural. A palavra "escassez" não é
bem-vinda ao discurso político contemporâneo. Este facto retira capacidade ao
governo de admitir e mitigar os emergentes problemas sociais e económicos
associados ao pico do petróleo.
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