O fim do petróleo barato: que podemos fazer?
por Manuel Collares Pereira

II Parte
Tendo compreendido que não podemos depender do petróleo barato como até aqui,
somos obrigados a adoptar uma política energética que tenha sobretudo este
facto em consideração.
E, afinal, o que há para fazer no curto e médio prazo é bem conhecido e
felizmente que não está dependente de nenhuma tecnologia por inventar,
milagrosa descoberta que viesse salvar-nos como nos filmes de Holliwood. .
Em primeiro lugar temos de aumentar a eficiencia energética em geral, isto é a
forma como usamos (hoje muito mal) a energia convencional todos os dias, quer
seja para fins produtivos quer para simples conforto ou lazer. Há muito que
sabemos que o potencial disponível nesta matéria é enorme, mas apenas foram
adoptadas politicas (que aliás têm produzido resultados) para os grandes
consumidores industriais de energia, ficando tudo o resto por fazer. A
dificuldade está em que as alterações necessárias são sobretudo do lado da Procura,
isto é do consumidor, e até hoje só temos realmente feito política energética
do lado da Oferta , onde tudo é mais fácil, reduzida que fica
a intervenção a meia duzia de interlocutores e confinada a um universo
(pequeno) de especialistas. O problema ao exigir uma actuação do lado do
consumidor, necessita de uma abordagem totalmente distinta. No limite, uma
verdadeira mudança de cultura. Foi o que se iniciou nos anos oitenta, depois
dos choques petrolíferos, na Europa Norte, com tremendos resultados! É verdade
que também em Portugal se tentou recuperar alguma coisa no final dos anos
oitenta com actuações que levaram, por exemplo, à criação do Centro para a
Conservação de Energia, mas faltou convicção e continuidade.
Em segundo lugar temos de recorrer a fontes de energia alternativas, capazes de
reduzir a procura da energia convencional (no caso em apreço do petróleo), uma
vez que esteja estabelecido o uso eficiente e, por si só, redutor dos consumos
que ainda teremos de satisfazer.
Aqui, com excepção possível da electricidade, mais uma vez estamos a falar da
necessidade de uma abordagem do problema do lado da procura ,
levando o consumidor a depender de forma crescente de formas alternativas de
energia a que não está habituado!
Ambas as estratégias exigem um esforço dedicado e especializado que começou a
ser esboçado de forma clara no famoso programa E4 dos ultimos meses do Governo
PS, também adoptado pelo anterior Governo mas, aparentemente, esquecido com o
passar do tempo...
Actualmente parece preferir-se o recurso a agências de consultores, que não
estão em condições de nos fazer sequer chegar ao que já foi ponto de partida,
desperdiçando-se assim a capacidade tecnica e o consenso que entre os tecnicos
existe nestas matérias e comprometendo-se a capacidade de se caminhar rápido
para o que não mais se pode adiar. Aliás, com benefícios claros noutras áreas:
não só porque assim se avança na direcção do cumprimento dos compromissos
assumidos em relação a Quioto (e ao efeito de estufa) e em relação à UE na área
das Renováveis, mas também porque estamos a falar de criar uma actividade
económica de fundo, com muito milhares de novos empregos a criar, capacidade de
exportação de Know-How e equipamentos, etc.
E no concreto, em relação ao petróleo?

Não cabe aqui ser exaustivo ou completo nesta matéria. Apenas vale a pena
indicar pistas do que é possível, para se ter uma ideia. Contudo, é evidente
que não poderemos deixar de pagar mais por cada unidade de combustivel
consumido (embora possamos, em principio, ter uma despesa anual menor, se cada
um de nós, no cômputo total, gastar menos).
Em primeiro lugar temos de começar a ordenar de forma sistemática, a integração
do espaço urbano e interurbano, por forma a minimizar as necessidades que temos
de nos deslocar na nossa vida diária. Depois temos que fomentar as
oportunidades para meios de transporte alternativos (alguns mesmo não
poluentes), em particular os colectivos, urbanos e interurbanos. Esta atitude
deverá ser também extensiva à actividade industrial/comercial onde os meios de
transporte colectivos ( caminho de ferro e maritimo) têm, ao longo dos ultimos
anos, regredido face ao transporte rodoviário.
É muito importante informar os consumidores de formas de redução de consumo
quando conduzem ou quando compram veículos ou outros equipamentos para a sua
actividade profissional. A diferença entre um sistema (um barco, um carro, um
camião) com boa eficiência e o que não a tem, pode ser enorme.
Muitas vezes isto não chega para haver adopção de comportamentos racionais
nesta área. Então há a possibilidade de introduzir regulamentação que fomente o
recurso a motores mais eficientes ou que induza um comportamento correcto dos
próprios condutores. Por exemplo há a possibilidade de se ter a imposição
efectiva(!!) de limites máximos de velocidade nas estradas - com consequencias
excelentes em termos de redução de acidentes e de todos os custos associados em
vidas humanas e danos materiais- e uma redução substancial de consumo de
combustível/km, sobretudo em autoestrada.
Entretanto podemos iniciar o caminho do recurso a um mix crescente dos
combustíveis alternativos- biodiesel, bioetanol- nos combustiveis liquidos
tradicionais. Podemos com isto ter até um impacto bem positivo na área da
agricultura que sabemos espartilhada, por razões internas e externas difíceis
de ultrapassar.
Na área da industria podemos recorrer, por exemplo, à energia solar e à
biomassa sólida para a produção de àgua quente de processo, evitando o consumo
de fuel para o mesmo efeito. Podemos também fomentar a cogeração, por via do
gás, sobretudo aquela que tem uma componente térmica predominante, precisamente
contribuindo para a redução de consumo de fuel não só na industria mas também
no sector dos serviços. O recurso à biomassa tem ainda o grande mérito de, se
vier da limpeza da floresta, reduzir a probabilidade de esta arder (para cerca
de um décimo), com enormes vantagens a este nivel, cifráveis em valores que
poderiam ser pagos para ajudar a fazer esta transição para um consumo
sistemático de resíduos florestais.
Merece ainda destaque o facto de que é fundamental começar hoje a transição
para o que deverá acontecer a médio e longo prazo: o aparecimento de novos
vectores de energia como é o caso do hidrogénio[1]. Sobretudo aquele que não
será produzido a partir de combustiveis fósseis, mas a partir de fontes de
energia alternativas, provavelmente usando sobretudo água como matéria prima.
Gastar dinheiro com investigação e desenvolvimento é, como sempre, um
imperativo e precisamos, mais uma vez, de perceber que este caso não é uma
excepção.
Por último volto à ideia de que, no limite, haverá um aumento do custo dos
combustíveis para todos nós que não podemos escamotear ou evitar . Podemos e
devemos, isso sim, procurar que a nossa despesa global não aumente, levando
todos os consumidores (e isto é verdade para o país e para a actividade
económica como um todo) a praticar eficiencia energética de forma sistemática,
reduzindo assim o seu consumo de todas as formas de energia de forma
significativa e a recorrer a fontes de energia alternativas. Sublinho, mesmo
quando não se trate de consumo de derivados de petróleo - por exemplo
para o conforto térmico das casas e dos edificios, ou para iluminação, ou para
aquecimento de água - ficando assim mais dinheiro disponivel para suportar o
sobrecusto a que teremos de nos habituar e que resulta do fim do petróleo
barato. Isto é, pagar menos noutras áreas, para poder pagar mais onde não se
pode evitar. Assim o que está em jogo para o Governo e para os cidadãos, é toda
uma política energética que deverá ser desenvolvida de uma forma objectiva para
produzir este resultado.
Emerge do quadro que se procurou traçar acima que é a soma de muitas
contribuições e actuações que nos levará a contrariar a crise em que o fim do
petróleo barato nos vai mergulhar de forma permanente. Isso não é facil de
obter de um dia para o outro, como o seria se houvesse uma solução mágica
adoptada por decreto para grande conforto de governos e políticos. Não é assim,
requer paciência, conhecimento e uma abordagem totalmente diferente. O grande
barco da energia precisa de rumo e de alguem com competência ao leme.
Lisboa , 31 de Outubro, 2004
Manuel Collares Pereira
(Investigador Coordenador do INETI)
Agradecimento:
Eng. Pedro Horta do DER (INETI) pela colaboração na adpatação do gráfico da
Fig.1
[Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal Diário Económico em
2005]
Notas

[1] quando o hidrogénio puder ter uma penetração substancial, provavelmente
então assistiremos a uma maior “electrificação” da nossa economia !
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