O fim do petróleo barato: que podemos fazer?
por Manuel Collares Pereira

I Parte
Com o petróleo acima de 50 dólares o barril, começaram a soar campainhas de
alarme por todos os lados. Apesar de esta crise ser uma crise “anunciada”[1] e
há muito a exigir uma actuação que minimize o impacto que esta realidade
inexorável terá na nossa economia, que o mesmo é dizer, nas nossas próprias
vidas!
Na Fig.1 apresenta-se um gráfico referente à produção passada e futura do
petróleo, extraído das publicações da ASPO (www.asponews.org)
e um quadro detalhando as reservas que se estimam disponíveis, no presente
(2003) e no futuro[2]. A ASPO é uma organização de especialistas independentes.
A palavra independente é aqui muito importante, pois são especialistas que não
estão ao serviço das grandes companhias petrolíferas ou das Agências ou outras
Instituições, nacionais ou internacionais, dos países produtores de petróleo, e
que podem, assim, dedicar-se a descodificar a informação que aquelas entidades
disponibilizam, procurando reduzi-la a um denominador comum que permita
comparação e uma integração útil.

Fig. 1: a evolução da produção: petróleo em Gigabarris de
petróleo equivalente/ano, exibindo um pico de produção de petróleo
convencional, a ocorrer antes de 2010; a figura mostra ainda a evolução
prevista para o petróleo não convencional (heavy, etc.,deep water, polar) e
para os líquidos associados ao gás natural-NGL (adaptado de ASPO NEWS 46,
October 2004)
Quadro 1: situação das reservas/produção de petróleo, passado e futuro.

Para bem compreender estes dados, importa explicar que há vários tipos de
petróleo. O mais abundante e comum (aquele cujo preço tem subido de forma
insistente!) é o chamado petróleo convencional, de extracção mais fácil e
barata ( a ponteado na Fig.1) e todo o restante (não convencional) que inclui o
que está a profundidades grandes sob o leito dos oceanos, o que se apresenta
misturado com areias, o chamado petróleo pesado, o polar, etc.. O primeiro, o
convencional, corresponde a cerca de 95% do petróleo produzido e é o mais
abundante. Em relação a este, os factos são que o seu pico de descoberta
ocorreu no ano de 1964 e que, de então para cá, se tem vindo a descobrir cada
vez menos, enquanto se foi produzindo a um ritmo crescente até às crises dos
anos 70, quebrando então e retomando depois, um ritmo crescente de aumento de
produção. Hoje, apenas se descobre um novo barril de petróleo por cada 4 que se
produz, com tendência a agravar-se cada vez mais a diferença entre descoberta e
produção.
A pouco e pouco fomo-nos aproximando do que se chama o pico de produção de
petróleo convencional, que no gráfico da Fig.1 ocorrerá antes de 2010
(2005/2006?). O pico corresponde a termos consumido metade do petróleo
convencional que havia para consumir. Quer dizer que teremos ainda outra metade
para consumir (portanto o petróleo, mesmo o convencional, NÃO vai acabar
tão cedo !!! ), mas agora não temos é capacidade para continuar a
responder, apenas com petróleo convencional, à procura que entretanto, essa
sim, não pára de crescer. Não são só as economias desenvolvidas que se mostram
sempre mais vorazes para o petróleo, mas também as economias em vias de
desenvolvimento, sobretudo gigantes como a China e a India.
Este aumento de procura e falta de elasticidade na resposta, tem como
consequência uma subida de preço que fará com que o restante petróleo, não
convencional, que tem custos de extração mais elevados e externalidades
maiores, se torne mais e mais competitivo e venha a ser mais e mais produzido.
O Quadro1 mostra que existe em petróleo não convencional, quase outro tanto do
que ainda falta produzir em convencional, tranquilizando-nos quanto ao facto de
que teremos ainda petróleo por muitos anos. Mas, a partir de agora será caro e
sempre mais caro!
Não é pois só uma questão circunstancial , logo destinada a
ser passageira, como economistas, comentadores económicos, representantes da
industria e dos países produtores, nos querem fazer crer. Refiro-me à
conjuntura económica ou às circunstâncias políticas, nacionais de alguns países
e internacionais. É mesmo uma questão estrutural que importa
compreender, porque, de outro modo, teremos a tendência para achar que tudo se
resolve quando a paz e a razão voltarem a imperar a nível internacional e a
seguir o caminho a que estamos habituados: cruzar os braços e acreditar em
milagres! Este caminho é particularmente arriscado para nós que temos a maior
dependência de petróleo importado da UE(15) (com excepção do Luxemburgo) e que
se cifra em cerca de 70% (energia primária), e uma dependência do exterior de
quase 90%, quando incluímos o gás natural e o carvão. Estes ultimos têm
tendencia a acompanhar a subida de preços do petróleo, o primeiro porque evolui
em paralelo, o segundo porque vai ser, cada vez mais, encarado como alternativa
(em queima directa e para a produção de combustíveis sintéticos, i.e. por
exemplo, a gasolina a partir do carvão) e o seu preço subirá por um
correspondente aumento de procura. Resta dizer que a média da UE(15) para a
dependência do petróleo é de pouco mais de 40%!
Importa compreender ainda o papel importantíssimo que têm os países do Médio
Oriente nesta matéria, onde estão mais de 60% das reservas por produzir de
petróleo convencional. A profunda instabilidade da região e o que isso
representava e representa hoje, de forma agravada, por causa da invasão do
Iraque, por si só causam subidas de preço, essas sim com caracter
circunstancial. Contudo, estas não parecem ser circunstâncias em vias de
desaparecerem depressa, nem mesmo se as eleições americanas forem ganhas pelo
candidato democrata .
Por tudo isto, Portugal deveria estar urgentemente a evoluir no sentido da
adopção de uma política energética capaz de realmente reduzir a sua dependência
do petróleo, simultaneamente contrariando a tendência para o crescimento de
consumo com perda de produtividade que se tem vindo a registar nos últimos
anos.
A energia nuclear: uma solução que não é para este problema...

Certamente que o que há para fazer não é propor a energia nuclear como solução
neste momento, como tem recentemente vindo a lume. Do ponto de vista da
energia, o petróleo (convenientemente transformado nos vários combustíveis
liquidos que utilizamos) é sobretudo usado para a produção de calor (para a
industria, por exemplo) e para os transportes. Hoje, está em vias de extinção o
seu uso para a produção de electricidade ! O nuclear, para já, só serve mesmo
para produzir electricidade. Assim, actuar a curto prazo para minimizar os
impactos do recurso a um petróleo cada vez mais caro, NÃO TEM QUE VER COM A
PRODUÇÃO DE ELECTRICIDADE, e portanto nada tem que ver com energia nuclear .
Isto é, o nuclear poderá um dia ser necessário mas não é como solução, hoje,
para este problema! Além disso, muito antes de termos de considerar o nuclear
para a produção de electricidade, teríamos soluções convencionais e
alternativas, mais imediatas de implementação e mais baratas (aumento de
potência em barragens existentes, centrais de ciclo combinado a gás natural-
aliás há vários pedidos para centrais destas em fase de estudo!- fontes eólicas
e minihídricas planeadas e por licenciar/instalar) que adiam esta questão do
nuclear em Portugal. Na minha opinião, praticamente sine die.
[na segunda parte deste artigo, será abordada a questão do que se pode fazer no
curto e médio prazo para fazer face ao fim do petróleo barato]
II Parte
Notas

[1] C.Campbell, J. Laherrère “The end of Cheap Oil”, Scientific American,
March,1998
[2] Contrasta com a informação, mais optimista sobre esta matéria, vinda da IEA
ou em publicações do sector, relatórios da OPEC e ou empresas produtoras (com
excepções recentes que começam a ir no mesmo sentido, como a do relatório
SHELL, 2003, admitindo, pela primeira vez uma redução das suas reservas). De
qualquer forma, mesmo os dados da IEA que acrescentam cerca de 30% à estimativa
de petroleo convencional que abaixo se indica (embora sem se perceber realmente
como!) não mudam de forma significativa os argumentos aqui apresentados
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