Irão: a crise nuclear e a bolsa petrolífera
por Alberto Cruz

O mundo continua entretido com a questão nuclear
iraniana, mais agora que o Alto Representante da UE
para a Política Exterior, Javier Solana,, entregou às
autoridades iranianas a proposta dos cinco membros
permanentes do Concelho de Segurança da ONU, mais a
Alemanha, para incentivar o Irão a abandonar o seu
programa de enriquecimento de urânio. Na qual que se
inclui previsivelmente (1), uma oferta para que esta
fase seja feita numa escala reduzida, numa central
experimental e debaixo do controlo internacional
dentro do território iraniano.
No passado dia 5 de junho, quase simultaneamente à
visita de Solana a Teerão, o país persa anunciava -
algo que passou despercebido - a abertura de uma zona
de comércio livre na ilha de Kish, o
passo crucial para a bolsa petrolífera que vem
funcionando de forma experimental desde à algum tempo
e que se anunciou oficialmente no passado dia 20 de
março, coincidindo com o início do ano persa, comece a
operar. Duas companhias europeias, a Total-Fina-Elf
(França) e a Agip (Itália) já têm ali os seus
escritórios regionais (2) porque consideram que a
bolsa de Kish se vai converter no quinto mercado de
petróleo, após os de Nova Iorque, Londres, Singapura e
Tóquio. A iniciativa surge quase em paralelo com o
anuncio da Noruega de que está a estudar a
possibilidade de criar a sua própria bolsa petrolífera
em euros. A ser assim, tiraria mercado a Londres, cujo
peso está a decrescer porque a produção britânica de
petróleo não para de cair desde o ano 2005.
O capital inicial com que se abre a bolsa iraniana
(Iranian Oil Bourse) é de 2000 milhões de dólares -
sim dólares, embora a pretensão iraniana seja de que a
bolsa comece a utilizar o euro como moeda de troca,
mas não a médio prazo - e ainda se está na fase de
captação de clientes. De momento, o Irão não vai mudar
o padrão referencial do petróleo para o euro, à espera
de ver como se resolve o contencioso, artificial,
sobre a questão nuclear. Quando der esse passo, num
momento em que também a Rússia anunciou a conversão do
rublo em moeda de transações internacionais para 1 de
julho - especialmente para o comércio do petróleo e
gás - (3), a estabilidade do dólar como moeda de
referência na economia mundial está como os seus dias
contados. As exportações de petróleo da Rússia somam
15,2% do total mundial, enquanto as do Irão se situam
nos 5,8%. Se a elas se somam as da Venezuela (5,4%),
que na recente conferência da OPEP celebrada em
Caracas expressou o seu desejo de substituir o dólar
pelo euro, um quarto do mercado do petróleo e gás se
transacionaría em euros.
Talvez aí se explique o ênfase que põem os EUA e uma
parte da Europa nas sanções económicas ao Irão se não
puser fim ao seu programa de enriquecimento do urânio.
De certo, está incluído nessa ameaça de sanções a
proibição dos bancos ocidentais de aceitar qualquer
tipo de transação com os bancos iranianos, com a qual
se dificultaria o êxito da bolsa petrolífera.
Prestígio e influência

A defesa do direito do Irão a desenvolver o seu
programa nuclear, a parte que cumpre os requisitos do
Tratado de Não Proliferação, encerra também uma busca
de prestígio e influência regional. O Irão procura ser
considerado o factor imprescindível nessa zona do
mundo, um papel que até o ano de 1990 - com a primeira
guerra do golfo - jogava o Iraque. E fá-lo baseado em
duas importantes premissas: por um lado, pela
influência que está exercendo no Iraque, o qual
conseguiu converter num verdadeiro quebra-cabeças para
as tropas ocupantes lideradas pelos EUA. Hoje pode se
dizer sem medo de se equivocar que o Irão foi o
principal beneficiário da invasão do Iraque. Se antes
da invasão de março de 2003, o Iraque era um
contrapeso sunita ao desejado expansionismo chiíta na
região, hoje a influência iraniana no Iraque e outros
países, é maior do que nunca. Por outro lado, também
pelo impressionante crescimento económico que alcança
os 6,2% anuais. As exportações de petróleo e gás
(estas últimas ainda incipientes) passaram de 23.000
milhões de dólares para 55.000 milhões em somente 2
anos como consequência do aumento dos preços do barril
de petróleo e as reservas monetárias em moeda
estrangeira situam-se nos 47.000 milhões de dólares, o
dobro da dívida externa, apesar das estimativas
dizerem que terminará o ano de 2006 com reservas de
62.000 milhões de dólares.
Como sempre, os números não são do agrado de todos. O
Banco de Mundial estima que "apesar do crescimento dos
últimos anos, os rendimentos per capita continuam uns
30% abaixo do que era em meados dos anos 70 [quando se
produziu a revolução islâmica] (5). O que não diz o BM
é que desde então o Irão tem estado submetido a um
sério embargo e sanções impostas pelos EUA de forma
unilateral, desde à já 27 anos, o tempo que leva a
revolução islâmica no poder, e que durante 8 anos, de
1980 a 1988, o Irão susteve uma caríssima guerra, em
vidas e para a economia, desencadeada pelo Iraque com
o beneplácito do ocidente e o resto dos regimes árabes
para conter o efeito expansivo da revolução islâmica
na região.
O que é inquestionável é que nos últimos anos o
crescimento económico iraniano tem sido sólido, embora
ainda haja muitas falhas por resolver, como o índice
de desemprego (oficialmente em 10,3%, embora seja
possível situar-se realmente no dobro), a saída do
país de jovens para trabalhar em países vizinhos e...
a dependência na importação de gasolina. Parece
curioso como um dos principais produtores de petróleo
do mundo tenha que importar cerca de 40% do total de
gasolina que consome, especialmente dos países
vizinhos árabes mas também da Venezuela. Como não é de
descartar que em caso de ameaça de sanções se incluía
o embargo à exportação de produtos refinados de
petróleo para o Irão, as autoridades deste país
decidiram antecipar-se e já anunciaram o
estabelecimento de planos para racionar a gasolina a
partir de setembro deste ano.
Incentivar os conflitos

Os iranianos que compram gasolina a um ridículo preço
(7 cêntimos de euro por litro), não veriam com bons
olhos uma situação de escassez, na qual se criaria o
caldo de cultivo propício para esse tão ambicionado
pelo ocidente "despertar" da sociedade iraniana, que
suponha o derrube do governo islâmico.
Enquanto essa situação não chega os países ocidentais
estimulam os conflitos étnicos como o de Baluchistão
(6), Azerbaijão e Khuzistão. Nesta última, com uma
população de maioria árabe, aonde assenta a maior
percentagem das reservas de petróleo do Irão, vêem se
produzindo atentados e é evidente a intervenção de
serviços secretos ocidentais, especialmente
britânicos. O episódio da detenção de dois soldados
britânicos - posteriormente libertados pela força
pelas tropas do seu país - por parte da polícia
iraquiana quando íam cometer atentados na cidade de
Bassorá é uma pequena amostra do que é a intervenção
dos serviços secretos ocidentais no vizinho Irão.
No Azerbaijão é a própria arrogância iraniana para com
a língua azeri que tem estimulado uma série de
manifestações de protesto que, recentemente, se
estenderam a pelo menos cinco cidades, Tabriz,
Urumieh, Ardebil, Maragheh e Zanjan. Não obstante, o
Irão acusa a Turquia de estar por de trás dos
protestos, numa tentativa de recuperar o seu papel
naquela zona, muito debilitado depois da invasão
anglo-americana do Iraque. Para 70% da população
turca, os EUA são maior ameaça que qualquer outro
país, incluindo o Irão. No seu mau momento, o primeiro
ministro turco optou por ajudar o seu tradicional
padrinho, EUA, agitando o seu complicado vizinho,
Irão.
O conflito de Baluchistão é essencialmente religioso,
considerando que a maioria da população é sunita. Aqui
actua uma organização denominada "Soldados de Alá" que
vem realizando acções armadas à algum tempo. No
passado dia 14 de maio, produziu-se um ataque contra
vários veículos que causou 12 mortos. Na reivindicação
do atentado, os "Soldados de Alá" disseram que era
pessoal militar enquanto os iranianos disse que eram
civis.
Todas estas questões devem ser tidas em conta quando
se fala do conflito nuclear iraniano. Tanto que os
"iranólogos" consideram que o Irão pretende responder
na mesma moeda, fomentando rebeliões das comunidades
chíitas por todo o Médio Oriente. Junto ao caso do
Hezbolla no Líbano que, do qual já falamos
anteriormente (7), mencionam-se dois países, Arábia
Saudita, onde há uma importante comunidade chíita na
região mais rica em petróleo e no Bahrein.
Esta última possibilidade, Bahrein, cria muito
desassossego nos EUA tendo em conta que neste país
está estacionada a chefia da quinta frota da marinha
de guerra, a que tem o encargo da "defesa" do estreito
de Ormuz, por onde circula 40% de todo o petróleo a
nível mundial. Em caso de ameaça de guerra, o Irão,
como já fez na guerra como Iraque, podia encerrar este
estratégico local. Mas há uma diferença em relação ao
sucedido à 20 anos atrás: então o Irão tinha um
exército débil e o encerramento só foi eficaz por uns
dias, enquanto que agora o exército iraniano está bem
equipado e treinado. As manobras e exibições que
realizou nos meses de março e abril são uma clara
advertência da sua capacidade militar.
Notas:

(1) Alberto Cruz, "India e Irão: outra amostra de
hipocrisia ocidental", Rebelión, 6 de março de 2006.
(2) "O Banco Asiático de Desenvolvimento prevê uma
tempestade monetária", Red Voltaire, 19 de abril de
2006.
(3) David Kimble, "Collapse of the Petrodollar
Looming", Globalresearch, 21 de maio de 2005.
(4) A Organização de Cooperação de Xangai foi criada
em 1996 com o objectivo de reforçar a cooperação em
matéria de fronteiras e controlar o tráfico ilícito de
estupefacientes, armas e explosivos. De ela fazem
parte o Cazaquistão, a China, o Quirguistão, a Rússia,
o Tadjiquistão e o Uzbequistão. Estes seis países
ocupam 61% do território eurasiático e contam com a
quarta parte da população mundial. Nos últimos anos
tem jogado um importante papel também no aspeto
económico, aonde a China tem muito que ganhar. A
presença do Irão nesta conferência implicará um
importante freio aos conflitos étnicos e religiosos
que se vivem em várias zonas do Irão, como
Baluchistão, Azerbaijão e Khuzistão. É necessário
salientar também que a China, o segundo importador
mundial de petróleo, compra 13 por cento do crude que
processa ao Irão e quer aumentar as suas aquisições de
gás natural. Nos primeiros 4 meses deste ano, as suas
importações de crude iraniano aumentarão 25 por cento
a respeito do mesmo período do ano passado.
(5) Washington Institute, 6 de junho de 2006.
(6) Jane's Intelligence Review, 17 de maio de 2006.
(7) Alberto Cruz, "Os EUA procuram no Líbano recompor
a sua estratégia para o Médio Oriente", 10 de abril de
2006, e "A ONU, outra vez, ao serviço dos EUA e
Israel", 23 de maio de 2006. Ambos os artigos
publicados no Rebelión.
Tradução: Luís Rocha
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