O Papel da Energia nos Déficits Comerciais Europeus
por Luís Moreira de Sousa (01/03/07)

A 16 de Fevereiro, o Eurostat publicou a sua
primeira análise dos balanços de comércio externo para 2006 (pdf),
tornando claro que a energia está a impor um fardo importante na economia da
União Europeia. Os números chave:
Durante 2006, o comércio na zona euro registou um
déficit de 8,2 biliões1 de euros, comparado com o superavit de 16,2
biliões em 2005. A UE25 registou um déficit de 172,6 biliões
em 2006, comparado o déficit de 111,8 biliões em 2005.
A balança do comércio externo de um país é calculada pelo montante de dinheiro
ganho por todos os produtos exportados menos o dinheiro gasto em todos os
produtos importados. Se o resultado é positivo, o país mostra uma economia
saudável onde o superavit de dinheiro provê um incremento no nível de vida.
Pelo contrário, um resultado negativo significa uma economia fraquejante que
perde dinheiro, pondo em risco o corrente nível de vida; numa tal situação o
problema pode ser mitigado atraindo investimento estrangeiro ou pedindo
empréstimos de dinheiro, mas essa nunca é uma situação desejável. Um déficit
crescente é um cenário que se não for revertido apropriada e atempadamente, é
insustentável, eventualmente traduzindo-se na perca de poder aquisitivo
individual e de nível de vida geral.
A notícia do Eurostat foca o período de Novembro a Dezembro de 2006, faz a
primeira estimativa para 2006 como um todo e retrata os resultados em detalhe
para o período Janeiro - Novembro de 2006. Este é provavelmente o pior balanço
externo desde que o Euro entrou em funcionamento, e não há enganos quanto ao
porquê:
O déficit de energia [na UE25] cresceu fortemente (-259,7 biliões de
euros entre Janeiro e Novembro de 2006 comparado com o déficit de -202,3
biliões de Janeiro a Novembro de 2005), enquanto os superavites cresceram no
sector químico (+72,4 biliões comparado com +64,9 biliões) e no sector de
maquinaria e veículos (+103,4 biliões comparado com +91,2 biliões).
O déficit no sector da energia cresceu 25% em apenas um ano, a esta taxa irá
superar 500 biliões de euros antes de 2010. E o cenário geral não é ainda pior
porque nos outros sectores (indústrias de transformação) existiram balanços
positivos. O incremento na actividade industrial trouxe algum crescimento
económico reflectido no aumento geral do comércio externo:
Os fluxos de comércio com os maiores parceiros da UE25
cresceram. Os aumentos mais notáveis foram das exportações para a Rússia
(+27% entre Janeiro e Novembro de 2006 comparado com o período Janeiro-Novembro
de 2005), China (+24%), Noruega e Índia
(ambos +14%), e para importações da Rússia (+27%), China
e Noruega (ambos de +21%) e Índia (+19%).
Outra vez números grandes, indicando que parceiros comerciais dominarão o
futuro do comércio externo. E claro, a Noruega e a Rússia estão aqui presentes
sobretudo como provedores de energia. Os números individuais para os principais
parceiros estão dispostos assim:
Balanços de Comércio Externo com parceiros chave, de Janeiro a Novembro de
2006
(valores em biliões de Euros)
|
2006 |
2005 |
| EUA |
84.6 |
80.9 |
| Suiça |
14.0 |
15.3 |
| Coreia do Sul |
-14.4 |
-12.2 |
| Japão |
-28.8 |
-27.4 |
| Noruega |
-38.0 |
-29.4 |
| Rússia |
-61.2 |
-48.0 |
| China |
-117.1 |
-97.4 |
O cenário só está a melhorar com os Estados Unidos, um parceiro que poderá vir
a cair em recessão nos próximos meses. Nesse caso o déficit só poderá piorar,
com o fluxo comercial através do Atlântico a arrefecer. O relatório do Eurostat
também contém números individuais para os estados com mais peso no balanço
geral:
Balanços de Comércio Externo em estados individuais, de Janeiro a Novembro de
2006
(valores em biliões de Euros)
| Alemanha |
151.0 |
| Países Baixos |
33.0 |
| Irlanda |
29.9 |
| Suécia |
15.2 |
| Itália |
-20.5 |
| Grécia |
-31.2 |
| França |
-31.9 |
| Espanha |
-81.4 |
| Reino Unido |
-116.6 |
No fundo desta tabela está o Reino Unido, que é ironicamente o maior produtor
de petróleo da UE. Como já
relatado por Chris Vernon, o país não está a conseguir adaptar-se às
taxas de depleção das suas reservas de hidrocarbonetos, abrindo muito
rapidamente um déficit energético que se traduz num déficit comercial de
biliões euros de três dígitos. São necessárias mudanças rápidas para inverter a
tendência; o papel que uma moeda independente do Euro terá ou não nessas
mudanças ainda está para ser visto.
Mas os casos mais sérios são os da Espanha e da Grécia, que apesar de terem um
deficit de menor volume, representam economias mais pequenas significando um
maior déficit por comparação com o PIB (ou per capita). A Espanha em particular
pode estar a dirigir-se para tempos difíceis, com um milhão de novas casas em
processo de construção e uma política de impostos baixos para produtos
petrolíferos - uma receita para apuros. Outros estados não mencionados podem
também estar em apuros, como Portugal, que tem um déficit comercial não muito
longe daquele da Itália, para uma economia e população muito menores.
Nos últimos meses a Europa tem experimentado algum crescimento económico, que é
também observável numa recuperação da balança comercial (externa) no final do
ano. Tal parece ser resultado de um período excepcional, em que os preços do
petróleo caíram (diminuindo os custos das importações) tal como o valor do euro
contra o dólar (facilitando as exportações). Com o ano novo o euro voltou a
fortalecer-se contra o dólar, algo que tem o duplo impacto de tornar as
exportações mais caras e para os parceiros importadores, mas que ao mesmo tempo
suaviza o impacto da conta da energia importada. Mesmo que uma moeda forte
permita mais alguns anos de pesadas importações de energia, a economia vai
continuar em apuros do lado das exportações.
A economia europeia consome energia e materiais brutos, produzindo e
manufacturando bens e serviços, com um balanço equilibrado no sector alimentar.
Esta estrutura económica simplesmente não pode funcionar apropriadamente num
mundo de decrescente energia disponível para comercialização. A Europa não
somente necessita de uma nova política energética, ela parece precisar de um
Paradigma Económico completamente diferente para enfrentar os anos que se
seguem.
Este artigo foi originalmente publicado em
The Oil Drum : Europe
Tradução: Luís Rocha
1 bilião é usado neste artigo e no documento do Eurostat para
expressar 109.
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