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Coreia do Norte e Cuba
A adpatação ao pico de produção do petróleo

por Dale Jiajun Wen - www.yesmagazine.org (13/12/06)

O colapso soviético de 1989 suprimiu o aprovisionamento de petróleo de dois países, desestabilizando a produção de alimentos. Aqui começa a história de como um se adaptou - e o outro não.

Que o pico na produção de petróleo está a chegar já não está em dúvida. A pergunta é quando o fará. O sistema alimentario mundial com o qual estamos familiarizados depende crucialmente da energia barata e do transporte de longa distância. Os alimentos consumidos nos Estados Unidos viajam uma media de 1.400 milhas.

Será que o pico na produção de petróleo significa inevitavelmente a inanição? Dois países nos brindam uma antevisão. As suas histórias divergentes, uma de fome e a outra de auto-suficiência, nos servem de advertência e modelo. A Coreia do Norte e Cuba experimentaram o cenário do pico do petróleo de forma prematura e abrupta, devido ao colapso do antigo bloco soviético e da intensificação do embargo comercial contra Cuba. Os resultados muito diferentes se devem parcialmente à sorte: o clima cubano permite que a gente sobreviva com rações de alimentos que seriam fatais nos duros invernos norte-coreanos. Mas a razão fundamental é a política: a Coreia do Norte tentou continuar com o 'status quo' o máximo de tempo possível, enquanto que Cuba implementou uma política activa para avançar em direcção a uma agricultura sustentável e auto-suficiente.

A onda de fome dos anos 90 na Coreia do Norte é um dos desastres menos compreendidos dos últimos anos. Se atribui geralmente ao fracasso do regime de Kim Il Jung. O argumento é simples: se o governo controla tudo, deve ser ele o responsável pelo fracasso dos cultivos. Mas este jogo ideológico de culpas oculta um problema mais fundamental: o fracasso da agricultura baseada na indústria química. Com o aproximar do pico do petróleo, muitas outras nações poderão experimentar desastres similares.

A Coreia do Norte desenvolveu a sua agricultura com base no modelo da Revolução Verde, com a sua dependência em tecnologia, maquinaria importada, petróleo, fertilizantes químicos e pesticidas. Houve sinais de compactação dos solos e degradação, mas o modelo de cultivos industriais proveio suficientes alimentos para a população. Então chegou o inesperado colapso do bloco soviético em 1989. O abastecimento de petróleo, o equipamento para as fazendas, os fertilizantes e os pesticidas [que são feitos à base de petróleo e gás natural, N. do T.] diminuíram significativamente, e isto contribuiu em grande medida para a onda de fome que se seguiu. Tal como observou um relatório de novembro de 1998 de um trabalho de colaboração entre a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação e o Programa Mundial de Alimentos:

"A agricultura norte-coreana, altamente mecanizada, enfrenta uma restrição muito séria porque cerca de quatro quintas partes da maquinaria e equipamento agrícola motorizado estão fora de uso devido à obsolescência ou falta de peças sobresselentes e combustível… De facto, devido à falta de camiões, o arroz colhido tem ficado nos campos durante largos períodos de tempo."

A Coreia do Norte fracassou em mudar em resposta à crise. A devoção ao status quo precipitou os desabastecimentos que continuam até o dia de hoje. Cuba enfrentou problemas similares. Em certos aspectos, os desafios foram ainda maiores para Cuba. Em 1989, a Coreia do Norte era auto-suficiente na produção de grãos, enquanto que Cuba importava cerca de 57 por cento da sua comida(1), já que a sua agricultura, especialmente o sector agrícola estatal, se concentrava na produção de açúcar para exportação.

Logo depois do colapso soviético e do fortalecimento do embargo dos Estados Unidos, Cuba perdeu 85 por cento do seu comércio e os seus insumos agrícolas [fertilizantes, pesticidas, N. do T.] baseados em combustíveis fósseis se reduziram em mais de 50 por cento. No pior momento da crise alimentaria resultante, em alguns lugares a ração diária consistia em uma banana e duas fatias de pão por pessoa. Cuba respondeu com um esforço nacional para re-estruturar a sua agricultura. A agricultura cubana agora consiste numa diversificada combinação de fazendas orgânicas, permacultura, jardins urbanos, energia animal, fertilizantes biológicos e controle biológico de pragas. A nível nacional, é provável que Cuba tenha agora a agricultura mais ecológica e socialmente sensível do mundo. Em 1999, o parlamento sueco distinguiu Cuba com o prémio Right Livelihood, conhecido como “prémio Nobel alternativo”, por estes avanços.

Inclusive antes da crise de 1990, principalmente em resposta aos efeitos negativos do uso intensivo de químicos, assim como à crise energética dos anos 70, os cientistas cubanos começaram a desenvolver biopesticidas e biofertilizantes para substituir os insumos químicos. Eles desenharam um programa de duas fases baseado em experiências anteriores com agentes biológicos. A primeira fase desenvolveu tecnologias de produção localizadas e em pequena escala; a segunda fase tinha por objectivo o desenvolvimento de tecnologias semi-industriais e industriais. Este trabalho de base permitiu a Cuba o rápido desenvolvimento de substitutos para os químicos agrícolas para enfrentar a crise de 1990. Desde 1991, 280 centros foram estabelecidos para produzir agentes biológicos usando técnicas e insumos específicos para cada localidade.(2)

Ainda que algumas tecnologias alternativas tenham sido desenvolvidas inicialmente com o único objectivo de substituir os insumos químicos, agora são parte de uma agroecologia holística. Os cientistas e os agricultores reconheceram os desequilíbrios do monocultivo de insumos intensivos, e estão transformando o sistema inteiro. Em contraste à solução única da Revolução Verde, a agroecologia ajusta a agricultura à medida das condições locais. Desenha complexos agro-ecossistemas que usam cultivos mutuamente benéficos e sementes adaptáveis localmente, toma vantagem da topografia e das condições do solo, e conserva a este em vez de esgota-lo.(3)

A agroecologia traz consigo uma abordagem sistémica, apagando as distinções tradicionais entre as disciplinas e utilizando o conhecimento das ciências do meio ambiente, economia, agronomia, ética, sociologia e antropologia. Ela faz ênfase na aprendizagem pela experiência, com programas de treinamento que adjudicam 50 por cento do tempo ao trabalho prático. O uso generalizado de métodos participativos ajuda em grande medida a disseminar, gerar e aprofundar o conhecimento agroecológico. Em síntese, os processos de investigação e educação agrícolas tornaram-se mais orgânicos também.(4)

Importantes mudanças institucionais facilitaram a transição. As grandes fazendas estatais foram reorganizadas em cooperativas agrícolas muito mais pequenas, para ganhar vantagens dos novos métodos locais, mais intensivos em esforço laboral. A transformação do trabalhador agrícola em agricultor especializado não é um processo rápido; muitas cooperativas agrícolas recentemente estabelecidas ficaram para trás em comparação com outras cooperativas mais antigas, em termos de gestão sustentável, mas existem programas em execução para ajuda-los a retomar o ritmo.

O sistema educativo e de investigação de Cuba jogou um papel muito importante neste processo. O foco no desenvolvimento humano conseguiu erradicar praticamente o analfabetismo. Os trabalhadores cubanos possuem a mais alta percentagem de educação pós-secundária na América Latina. A população altamente educada preparou muito bem Cuba para a transição para o modelo de agricultura sustentável, mais intensivo em conhecimento.

Nos anos 70 e 80, a maior parte da educação agrícola estava baseada na tecnologia da Revolução Verde. A crise de 1990 deixou muitos agro-profissionais impotentes, sem insumos químicos, sem maquinaria nem petróleo. Em resposta, as universidades agrícolas iniciaram cursos de treinamento agroecológico. Um novo centro nacional foi criado para ajudar à nova investigação e às necessidades educativas da comunidade agrícola. Actualmente organizam-se cursos, encontros, workshops, dias de campo, debates e intercâmbios de experiências para os camponeses. Já que alguns métodos tradicionais de cultivos orgânicos sobreviveram entre pequenos camponeses ou em cooperativas, a comunicação entre camponeses se utiliza amplamente para facilitar a aprendizagem mútua.

A chegada do pico de produção do petróleo sacudirá as mesmas bases do sistema alimentario mundial. A adversidade que Cuba e a Coreia do Norte experimentaram nos anos 90 pode ser muito bem o futuro que todos enfrentamos, seja nos sectores rurais já hoje adoecidos de muitas nações do Terceiro Mundo ou na agricultura altamente subsidiada do Norte. A agricultura cubana demostra que existe uma alternativa; incrementar a produção e cultivar melhor comida, reduzindo ao mesmo tempo os insumos químicos, é possível mediante una apropriada reestruturação dos sistemas agrícolas e alimentarios.

É pouco provável que tenhamos um cenário de pico abrupto na produção de petróleo, onde a metade dos insumos agrícolas baseados em combustíveis fósseis desapareçam de um dia para o outro; é mais provável que tenhamos um incremento gradual mas imparável do preço do petróleo, fazendo que os insumos convencionais químicos se tornem impagáveis.

Esta é a vantagem que temos sobre Cuba e a Coreia do Norte; apesar de que praticamente ninguém predisse o rápido colapso do bloco soviético, nós sabemos que o pico de petróleo se está aproximando e temos tempo para nos prepararmos. Também temos desvantagens: o pico do petróleo será uma crise global, possivelmente agravada pelo aquecimento global, de modo que provavelmente não haverá nenhuma ajuda internacional para apoiar a gente face a uma grande crise alimentaria; ou enfrentamos o problema agora, ou a Natureza se encarregará de nós.

Não somente os políticos, mas também a gente comum necessita considerar a questão: Deveríamos tentar apoiar o sistema e continuar com a situação actual por tanto tempo quanto seja possível? Ou deveríamos tomar medidas preventivas para evitar o desastre? Esta escolha poderá determinar se terminamos ficando com uma agricultura mais sustentável como a de Cuba, ou com uma fome desastrosa como na Coreia do Norte.

Dale Wen é uma cientista visitante do Forum Internacional sobre a Globalização. É nativa da China, especialista em assuntos chineses e questões de globalização.

Tradução: Luís Rocha

Notas:

(1) Peter Rosset, “Alternative Agriculture Works: The Case of Cuba” (“A Agricultura Alternativa Funciona: O Caso de Cuba,”) Monthly Review 50:3, Julho/Agosto 1998.

(2) Nilda Pérez & Luis L. Vázquez, “Ecological Pest Management” (Gestão Ecológica de Pragas).

(3) Em “Sustainable Agriculture and Resistance: Transforming Food Production in Cuba” (“Agricultura Sustentável e Resistência: Transformando a Produção Alimentar em Cuba”,) Fernando Funes, e outros, Editorial “Food First Books”, Oakland, 2002.

(4) Miguel A. Altieri, “The Principles and Strategies of Agroecology in Cuba” (“Os Princípios e Estratégias da Agroecologia em Cuba”) em ibid.

(5) Luis Garcia, “Agroecological Education and Training” (“Educação e Treino em Agroecologia”) em ibid. Tradução: Luís Rocha